Resenha | O Diário de Anne Frank

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Não é o tipo de leitura que agrada a todos, mas há algo de mágico nos diários pessoais. Você é transportado para algo além da história de alguém... Você tem acesso a tudo o que essa pessoa estava sentindo enquanto escrevia, e isso é quase poético - é lindo.

Foi com esse sentimento que comecei a ler O Diário de Anne Frank, obra clássica que conta em pormenores como era o universo de uma judia fugida em meio a Segunda Guerra Mundial. Não é uma história feliz, claro, mas o mais impressionante é a leveza que Anne consegue passar em sua escrita e visão sobre tudo que lhe acontecia.

"Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta. Mas pergunto-me: escreverei alguma vez coisa de importância? Virei a ser jornalista ou escritora? Espero que sim, espero-o de todo o meu coração!" 

E é essa leveza que introduz o leitor com naturalidade no universo (pequeno e proibitivo) que passa a ser a vida de Anne dentro de seu esconderijo. É impossível não se sentir inserido na história logo nas primeiras páginas, porém, essa inserção cresce substancialmente no decorrer do diário de Anne e a leitura vai fluindo cada vez melhor.

A história da menina é famosa e lembrada de tempos em tempos, mas, ainda assim, vou fazer um apanhado aqui para explicar mais ou menos o contexto deste diário, que foi escrito entre junho de 1942 e agosto de 1944. Anne Frank foi uma garota judia, filha de pais de classe média alta, que precisou fugir das garras nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. O plano da família era se esconder em um anexo localizado em um escritório de trabalho, com o apoio de amigos e contando com a sorte para não serem descobertos até que a guerra acabasse.

O sucesso do plano dependia de apenas algumas coisas: todos os membros do grupo - que também incluía mais uma família e um senhor - ficarem em silêncio total durante o dia, ninguém sair da casa, todos os envolvidos manterem segredo sobre a situação e, claro, a sorte de não ter o imóvel vistoriado em algum momento.

"Enquanto ainda há disto, pensei, um Sol tão brilhante, um céu sem nuvens e tão azul, e enquanto me é dado ver e viver tamanha beleza, não devo estar triste." 

Isso significa que o grupo passou por incríveis privações, medo (afinal, ninguém queria ir para os temidos campos de concentração) e ansiedade. É em ambientes assim que visualizamos o lado mais humano de qualquer pessoa, e isso tudo é explorado com maestria pela observadora Anne.

O interessante aqui é perceber que, apesar do renome e importância histórica da obra, não estamos lidando com um livro que vai lhe ensinar história básica ou citar constantemente acontecimentos marcantes para a época. A verdade é que todo esse livro foi escrito por uma menina trancada em um cômodo apertado, sem acesso ao mundo exterior. Vejo muitas críticas negativas a obra por isso, e acredito que seja mais culpa do leitor, que pega a leitura totalmente desinformado sobre o seu conteúdo.

Mas é impossível não sentir todos os dramas sofridos pelo grupo, desde aqueles provocados pelo aperto que a situação em si gerava, como fome ou medo, até os relacionados com as dificuldades de conviver durante tanto tempo (e em uma situação tão delicada) com outras pessoas. O grupo logo é permeado por brigas, discussões cada vez mais infantis, mostrando como o universo de alguém trancafiado em um lugar pode se tornar pequeno e restrito. Até os adultos parecem voltar ao tempo de infâncias, imaturos e intransigentes.

"Gostaria de dizer isto: acho estranho os adultos discutirem tão facilmente e com tanta frequência sobre coisas tão mesquinhas. Até agora eu achava que birra era uma coisa de criança e que a gente superava quando crescia."

Acompanhar os pensamentos de Anne Frank nos dá 2 grandes conclusões: a de que ela era só uma criança em meio um acontecimento brutal como aquela guerra, e também o fato dela ser extremamente madura, e amadurecer ainda mais rápido naquele espaço. A evolução da menina é nítida durante os 2 anos em que ela escreveu o Diário e mesmo o leitor consegue sentir a sutileza de seu amadurecimento.

O lado ruim é que esses diários passaram por um pente fino do próprio pai da Anne, que sobreviveu ao Holocausto e resolveu publicar o diário da filha após a Segunda Guerra. Hoje, existem diversas edições diferentes do Diário, mas todos possuem algum nível de corte, já que o pai achou coerente tirar da edição momentos como as brigas e críticas de Anne para com a mãe, por exemplo. Além disso, questões que a garota levantava sobre a própria sexualidade também foram cortadas de algumas edições. Sobre esses detalhes e mais informações sobre as edições existentes, recomendo muito o vídeo-resenha da maravilhosa Tatiana Feltrin sobre o livro!

"Por vezes penso que Deus quer pôr-me à prova. Tenho de me aperfeiçoar sozinha, sem exemplo e sem ajuda, só assim hei-de ser um dia forte e resistente. Quem, além de mim, lerá estas coisas? Quem pode ajudar-me?"

Outro detalhe importante é que a personalidade forte de Anne nos traz reflexões maravilhosas sobre gênero, guerra e humanidade, e a honestidade da menina ao escrever sobre essas questões (de forma madura) é maravilhosa. Me encantei com trechos em que ela fala sobre a beleza do ser mulher e conta seus próprios sonhos para o futuro, ainda que ela descreva tudo com o óbvio medo do que poderia acontecer.

É doloroso saber de antemão que todo sacrifício feito pelo grupo, seja para sobreviver, seja para conseguir conviver uns com os outros, foi em vão. Ainda em agosto de 1944 o Anexo, como eles chamavam o local, foi descoberto e todos acabaram em campos de concentração: Anne Frank e sua irmã morreram de tifo, a mãe delas também morreu e, da família, apenas Otto Frank, o pai, conseguiu se safar vivo.

Enfim, acredito que O Diário de Anne Frank seja uma obra importante sobretudo para alimentar o nosso senso de empatia. Descobrimos os piores e melhores lados do ser humano enquanto lemos, acompanhamos o crescimento de uma menina inteligente e gentil e também ouvimos os relatos mais engraçados, curiosos e até românticos (como é de se esperar de um diário de adolescente!).

"Todo mundo tem dentro de si um fragmento de boas notícias. A boa notícia é que você não sabe quão extraordinário você pode ser! O quanto você pode amar! O que você pode executar! E qual é o seu potencial!"

Recomendo bastante a leitura principalmente para quem gosta de estudar a Segunda Guerra e quer ter uma visão mais intimista sobre as vidas de pessoas que viveram na época. No mais, com certeza adorei a obra!
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O Diário de Anne Frank 

Autora: Anne Frank
Editora: BestBolso
Ano: 2016
378 páginas
Skoob
 Nota ★★★★★
Sinopse: 12 de junho de 1942 até 1º de agosto de 1944. Ao longo deste período, a jovem Anne Frank escreveu em seu diário toda a tensão que a família Frank sofreu durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fim de longos dias de silêncio e medo aterrorizante, eles foram descobertos pelos nazistas e deportados para campos de concentração. Anne inicialmente foi para Auschwitz, e mais tarde para Bergen-Belsen. A força da narrativa de Anne, com impressionantes relatos das atrocidades e horrores cometidos contra os judeus, faz deste livro um precioso documento. Seu diário já foi traduzido para 67 línguas, e é um dos livros mais lidos do mundo. Ele destaca sentimentos, aflições e pequenas alegrias de uma vida incomum, problemas da transformação da menina em mulher, o despertar do amor, a fé inabalável na religião e, principalmente, revela a rara nobreza de um espírito amadurecido no sofrimento. Um retrato da menina por trás do mito.

2 comentários :

  1. Olá, como vai?
    Esse livro está na minha lista de leitura há séculos. Eu já assisti ao filme e não curti muito. Esperava mais emoção. Tenho a expectativa de que o livro seja bem melhor.
    Adorei sua resenha.
    Abraços!

    http://ymaia.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Oi, Ygo! Quanto tempo! :)

      Então, não sei se consigo enquadrar o Diário como um livro emocionante. As vezes dá pra sentir o desespero de Anne escrevendo mas, em geral, todos fingiam o maximo possível uma vida normal, escondendo a dor (é o que acreditava, enquanto lia o livro).

      Mas acho que você vai gostar porque a mente de Anne é bem cativante e ela traz muitas discussões interessantes (e ela era tão nova, ainda me surpreendo com a maturidade!).

      Abraço!

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