Resenha | Para os meus pais (Mar Paschoal) e porquê ainda precisamos falar sobre o estupro

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Para os meus pais: A história de Clara e Amanda é um reflexo do que se esconde por detrás de muitos vestidinhos arrumados e mulheres sorridentes. O enredo criado pela Mar Paschoal, blogueira literária que estreou com esse livro, mostra a vida de duas meninas que poderiam ser qualquer uma num país onde o abuso, incluindo o sexual, é relativizado e impune.

Esse é um livro que grita que precisamos falar das Amandas, e também das Claras. Não só falar sobre elas, mas protegê-las, mesmo sem saber seus nomes ou idades; protegê-las, às vezes, de quem mais deveria estar protegendo-as. 

Apesar da narrativa ainda bastante imatura, em alguns quesitos, o ponto forte da Mar Paschoal foi ter criado um enredo com uma protagonista muito, mas muito real. Na história, Clara é uma menina que sofre com a falta de atenção dos pais, como muitas outras crianças com pais muito dedicados ao trabalho.

Morando com a avó, ela olha para as outras crianças com algum quê de inveja, por enxergar nelas crianças felizes com pais de verdades, apesar de amar e saber que é amada pela avó. Essa impressão ganha força na garota quando ela conhece sua vizinha, a Amanda, que parece ter tudo que uma garota poderia ter, e talvez muito mais. Só parece.

É ai que tudo começa. Com uma narrativa simples, sempre em primeira pessoa e com um tom de quem está voltando ao passado e recontando lembranças, Clara nos guia por uma história de dor vivenciada por mulheres em corpos de crianças. São meninas - tão novas - que tiveram a infância roubada por um homem, e Clara narra isso como alguém que assiste e não vê como pode fazer algo.

O diferencial da Mar, possivelmente, foi dar voz para uma protagonista que sofre igualmente quanto a vitima, mas não está exatamente nesse papel que, com certeza, é ainda mais doloroso. O tempo todo ela vai te fazer pensar: são só crianças. 

O livro - que está mais próximo de ser um conto ou novela, pelo seu tamanho - explorou o resultado do medo na cabeça de crianças, ainda mais em transição para a adolescência, e apontou para o mal que ronda não só os filhos que são vitimaas, mas também as crianças próximas a elas. O abuso sexual é um tema delicado, sobretudo pela dor que ele provoca, mas um tema muito necessário.

Nós enxergamos, sobretudo em Clara, que a dor vai muito além da dor física. Não é apenas isso. O sexo tanto de Amanda quanto de Clara se torna doente, e a autora conseguiu mostrar isso muito bem em sua narrativa, apontando as relações as vezes frustradas que as garotas tentavam ter com outras pessoas. Até isso delas é roubado. 

Gostei do livro muito mais pelo seu tema e abordagem, do que exatamente por uma maestria da autora na escrita. Tem alguns defeitinhos e erros ortográficos aqui e ali, mas certamente não é nada que vá incomodar muito.

Do meio para o fim do livro, muitos trechos se tornam muito confusos porque a protagonista começa a narrar os acontecimentos no presente, passado e futuro, também, o que deve ter deixado umas pontas soltas aqui e ali, mas, novamente digo, nada de muito grave pra ideia geral do livro. Esse é aquele tipo de livro que é muito melhor se deliciar em uma hora vaga no fim de semana, até porque, em 2 ou 3 horas você finaliza a leitura. 

É impossível não sentir a dor da protagonista enquanto ela vê como alguns homens são, na verdade, monstros, e o leitor sente a necessidade de ver algo acontecer e mudar aquela situação. A leitura flui bem rápido, por esse e vários outros motivos, incluindo a narrativa bem simples da autora, apesar de uma ou outra divagações da protagonista que tornam a leitura mais lenta em alguns pontos.

Você só quer que tudo acabe bem, e o final do livro surpreende por ter um misto de sentimentos e acontecimentos. Considerei bem positivo. Esse, certamente, é um livro real sobre não apenas duas meninas, mas milhares delas espalhadas pelo mundo, dezenas delas, talvez, agora em seu bairro. É uma história real, sim, ao ponto que traz não apenas uma realidade, mas a realidade de milhares de meninas que tiveram suas infâncias roubadas.

"Não vou mentir, muitas personagens do livro um dia existiram. E todas elas foram muito importantes para a construção da obra. Porque eu me inspirei em 10, 15, 20, um milhão de pessoas, misturei tudo e criei a Amanda e a Clara." - Mar Paschoal na apresentação de seu livro

Autora: Mar Paschoal
Autora auto-publicada - Amazon
75 páginas
SkoobAmazonWattpad Nota 4/5 ou 9 de 10Sinopse: Existem milhares de pessoas que sofrem com seus próprios problemas. E milhares que sofrem com o sofrimento dos outros. Clara é uma dessas.
Sua melhor amiga, Amanda, tem um segredo devastador. Clara sabe o que Amanda tenta esconder. Mas jurou à amiga que não falaria a ninguém. Clara se vê em um impasse: conta para todos, trai a amiga e a salva? Ou omite, finge que não sabe de nada, é fiel e deixa o universo decidir o que acontece no futuro?
Em "Para os meus Pais" a protagonista não é a vítima. É a amiga dela e sua impotência.

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