Resenha | O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)

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Ganhador do prêmio Pulitzer de Ficção na década de 50, O Velho e o Mar é um retrato do que é ser humano além dos fatos, além do próprio dia-a-dia. A história do velho Santiago e sua relação com o mar é como uma história do que é ir atrás de objetivos - quaisquer que sejam eles - num mundo de natureza tão peculiar quanto o nosso. É um livro que encanta, sobretudo, pelo modo como o ser humano e suas emoções são dissecados, ambos, em cerca de 100 páginas de narrativa ininterrupta, quase sem personagens nem diálogos. 

O livro tem como personagem principal Santiago, pescador que já está há 84 dias sem pegar um único peixe grande. De vida simples e quase sem conseguir se alimentar diante sua falta de boas pescas, ele conta com a ajuda de um jovem menino do vilarejo, que antes era seu assistente mas, diante o tempo de vacas magras, os pais do menino resolveram botá-lo para auxiliar pescadores mais bem sucedidos. Isso dá ao pescador ainda mais garra para ir ao mar, dessa vez sozinho, rumo a pesca do maior peixe que ele jamais vira. Ele, um velho cansado e que vira e sofrera na vida muita coisa, contra um grande peixe, um peixe que, como o velho, vira no mar muita coisa e estava apto a fazer de tudo pela própria sobrevivência.

Sem capítulos e com uma narrativa que passa 90% em mar aberto, só o pescador, o mar e o grande peixe que ele espera pescar, a leitura é extremamente intimista e nos apresenta os homens como eles são. Pequenos demais, diante a vida, mas ainda assim dispostos a buscar seu próprio lugar em meio a tanto mar e tanto peixe. Santiago é uma figura enigmática e solitária, e durante os 3 dias em que acompanhamos a sua pescaria, ele divaga sobre a vida, sua existência dentro dela e o objetivo dos desejos humanos - do seu próprio desejo.

É um livro que com certeza está distante dos contos-de-fada e finais encantadores. Não é um livro sobre conquista, mas sobre o orgulho, dor e sacrifício que é o ato de conquistar. Depois de um dia inteiro no mar, sem sentir em sua linha de pesca o menor movimento, Santiago percebe que fisgou algo. Algo enorme. E ele declara que essa talvez seja a maior luta de sua vida.

Foram mais dois dias segurando essa linha de pesca, sentindo seu barco ser puxado pelo enorme peixe, que, assim como Santiago, não desistia. Foi um período de dor física e cansaço psicológico, em que Santiago pensa em seu próprio corpo limitado, nas estrelas que parecem tão distante e no que ele tem como amigo e cenário de sua existência: o próprio mar.

Por ser tão desassociado de atos em si - diálogos e convivência com outros personagens - o livro se torna denso para quem está procurando um enredo de outra espécie. Não é um livro para você olhar o que Santiago fez durante a  narrativa e amá-lo - ou odiá-lo - por isso, mas para você dissecar o que o personagem pensou, o que ele é, e levar isso para sua vida também.

O que o autor queria trazer não era o turbilhão de emoções que temos nos livros convencionais, em que vibramos com os picos dos romances e aventuras. Ler nas entrelinhas fará da leitura de O Velho e o Mar algo mais rico e agradável, com certeza. 

O autor oscila entre contar a história como um observador, e como o próprio protagonista. Em algum momento das 100 páginas, Santiago ganha voz e espirito dentro do enredo de tal forma que o leitor é o que ele é. Só humanos. Você consegue sentir sua dor, seu ensejo e, apesar de seu cansaço, sua vontade de continuar segurando aquela linha de pesca até que aquele peixe desse a ele uma chance para vencê-lo numa batalha final. 

O decorrer do livro é simbólico, mas não tanto quanto seu final. Não convêm que eu conte numa resenha o que Ernest Hemingway construiu na finalização da epopeia do velho Santiago, mas todos os significados estavam ali. A vida é mais dura do que apenas ter o que você quer, porque a vida segue, mesmo após você perder ou ganhar algo que passou tempo se dedicando a ter. Santiago, tal como nós enquanto personagens na existência, seguiu em frente. Até porque somos sempre obrigados a seguir.

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Autor: Ernest Hemingway Editora Biblioteca Folha
96 páginas
SkoobNota 10 Sinopse: Essa é a história de um homem que convive com a solidão do alto-mar, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e sua inabalável confiança na vida. Esse é o fio do enredo - fio tenso como o que prende na ponta da linha o grande peixe que acaba de ser pescado - com o qual Hemingway arma uma das mais belas obras da literatura contemporânea.Há 84 dias que Santiago, um velho pescador, não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salão, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas Santiago possui têmpera de aço, acredita em si mesmo, e parte sozinho para o mar alto, munido da certeza de que, desta vez, será bem- sucedido no seu trabalho.

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