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Representação da mulher na ficção: Uma análise sobre o simbolo feminista em Neuromancer

domingo, abril 10, 2016 Naiane Aline 3 Comments Category : , , , , ,

Se há algo de perigoso na literatura contemporânea, isso ainda é a subposição das mulheres nas histórias - sejam elas fantásticas ou não. Não estou falando apenas de como as mulheres são pessimamente descritas em romances eróticos ou nos gêneros Young Adult/New Adult, mas também do modo como elas quase não aparecem em histórias de ficção como personagens de destaque e relevância, e não somente uma coadjuvante que auxilia o protagonista homem a conseguir seu objetivo. São pouquíssimos os livros que saem desse ciclo vicioso e apresentam personagens femininas interessantes e autênticas, e Neuromancer foi um deles. A seguir, analiso a participação de Molly Millions, uma das personagens centrais, no enredo em contraponto com toda representação feminina que nossos livros, de romances à aventura, insistem em fazer. Esse post vai esmiuçar um pouco sobre a presença feminina na obra, e mostrar o porquê de Molly Millionsser um símbolo feminista.

Neuromancer foi uma das minhas leituras introdutórias a todo universo cyberpunk/ficção cientifica. Já escrevi sobre minha experiência com o gênero nesse post aqui, e apresentei minha critica sobre o livro na resenha que publiquei algum tempo atrás. Um dos pontos que não pude me estender foi a presença de um símbolo feminino forte na narrativa criada por William Gibson. Veja bem. O espaço da mulher na ficção científica sempre foi diminuto e quase inexistente, então é surpreendente que um livro de 1984 consiga traçar uma personagem tão simbólica quanto Molly, ao ponto que mostra como não é difícil dar uma presença feminina real à livros, sejam eles do gênero ou não.  Dividi o tema em tópicos para um entendimento mais fácil, e segue:

1- Indo além dos estereótipos

Não é à toa que mulheres cansam de ler certos tipos de livros, sobretudo romances de banca. Mesmo escritos por autoras mulheres, é impressionante como as personagens do mesmo sexo são simplificadas e enquadradas num perfil de hiper feminina x frágil. Como se não bastasse isso, em outros gêneros literários as mulheres são representadas como meros pontos de apoio para o protagonista homem. Molly é um contraponto à tudo isso. Do inicio ao fim do livro, ela é o que Case, o protagonista de Neuromancer, nunca será. E mesmo em seu suposto papel de coadjuvante, ela supera e chega no mesmo nível de importância para a história que Case.

Mulheres não são damas em perigo, nem criaturas chorosas que passam o dia inteiro sendo sensíveis e cuidadosas com os homens. Nem todas vivem apenas para ter um relacionamento - e nenhuma deveria viver somente com esse objetivo, diga-se de passagem. Eu não sou isso, Molly também não é. O que também não quer dizer que as mulheres em geral não sejam baixinhas - ou altas - ou que não tenham tanta força física quanto um Schwarzenegger da vida, mas elas não são APENAS isso. Mulheres não são apenas e tão somente criaturas delicadas, pelo amor da deusa. Eis o porquê de Molly encantar tanto. Ela não é o estereótipo profundo de mulher delicada, e isso é bom. E se ela não precisa de um homem para matar uma série de soldados, que dirá pra matar uma barata ou abrir um pote de geleia? E se alguma mulher precisa, isso não quer dizer que ela seja um poço de delicadeza frágil e quebradiça, ainda assim. Por favor.

2- Sexo é poder

Proposital ou não, objetificação sexual da mulher em livros é comum. Há algum tipo de obrigação em ter uma protagonista delicada, mas voraz na cama, algum tipo de femme fatale, sobretudo e principalmente nos romances de teor adulto. São delicadas, sensíveis, mas, apesar de puritanas - algumas vezes virgens -, adoram um sexo selvagem. Exalam sensualidade sem nunca ter feito uma relação sexual. Em resumo, estão prontas pra satisfazer o macho alfa a qualquer momento, em detrimento de sua falta de experiência. Não preciso nem apontar qual o problema dessa representação, preciso? Ou será que nós, mulheres, somos meramente poços de hormônio operando com choro e sensualidade o dia inteiro? E, olha só, mulher gosta de sexo, sim, obviamente, mas há um problema grave na objetificação de mulheres, principalmente com relação à seu nível de experiência.

A relação sexual na literatura é também uma clara representação de forças e poder. O teórico social Michel Foucault afirmou em uma entrevista que o sexo muitas vezes é mostrado como um jogo de estratégia e conquista. Parece até exagero falar isso, mas é verdade. A descrição de sexo em romances eróticos, que representam muito mal as mulheres, por sinal, pode servir de exemplo disso. A protagonista quase sempre é um terreno isolado e não explorado. É comum encontrar romances que descrevem a mocinha como alguém que não vê sexo há 5 anos, por exemplo. E está ai a relação de poder do homem protagonista na história: ele é quem dominará esse lugar. No caso de protagonistas virgens, é dado a ele, e unicamente a ele, o direito de tomar posse daquele lugar. E quanto menos homens tiverem o mesmo direito com aquela mulher marcada por sua masculinidade, melhor pra ele - no funcionamento de todo enredo do romance. E daí vem o ciúme quase doentio que é usado como um defeito-qualidade do protagonista pelas autoras.
“Ele é louco de ciúme, mas é um ciúme tão fofo”.

Eis o raciocínio. Ele pode matar outro cara só com seu punho por causa do ciúme, e ainda assim isso será mostrado como uma coisa “boa”. Não é difícil achar romances, principalmente New Adults, com cenas desse nível. Belo Desastre é o de nome mais forte, mas podemos facilmente pensar em outros também. O romance erótico Amante Sombrio (J.R.Ward) - que terminei de ler essa semana - é também um exemplo clássico desse ciúme doentio louvado quase que positivamente.

Sexo é poder. William Gibson sabia disso. Em Neuromancer, o protagonista de Gibson é um desajeitado viciado em drogas. Apesar de ter uma suposta amante, ele é virgem. E Molly é quem dá a ele sua primeira vez: nada de romantização ou excesso de sensualidade. O sexo no livro é o mais fisiológico possível. Molly não utiliza o sexo para controlar Case, e tampouco se deixa ser controlada. O sexo é uma necessidade; necessidade dela, necessidade dele. Tampouco há um esquema de conquista, o que, de certa forma, quebra o processo de sexo como estratégia social, como já citado acima.

Em contraponto, como mulher, Molly ainda está suscetível à homens que utilizam o sexo como poder. O abuso sexual é assustador mesmo para uma mulher samurai, e o escritor sabia disso. No decorrer da história, aparece um personagem turco chamado Riviera. Ilusionista nato, ele tem o poder de gerar miragens visíveis a todos que estejam por perto. Numa ida a um restaurante lotado, ele se levanta e declara que vai fazer um show. A miragem que ele montou mostrava ele, Riviera, tirando a roupa de Molly e fazendo sexo com um quê sádico e nojento. A Molly verdadeira, que estava na mesa em frente a ele assistindo tudo, se levantou de um pulo e saiu do local. Assustada. Enjoada. Essa é a prova que eu precisava ter para saber que o autor conhece muito bem o que é a relação de violência e poder que o sexo pode ter, e geralmente tem.

3- Mulheres fortes não são mulheres masculinizadas

O ponto chave do autor foi ter construído uma personagem mulher forte, mas não masculinizada. Ela é poderosa, dona de si e capaz de derrotar qualquer homem numa briga. Mas isso tudo sem deixar de ser mulher: outro perigo da representação feminina, é o escritor dar a ela características masculinas para que ela se torne “forte” ou mesmo digna de respeito. Molly não é isso. Molly é mulher, e é uma mulher samurai, uma mulher forte e que salva o protagonista um trilhão de vezes, não o contrário. E mesmo sua relação com Case é permeada por uma autoridade dela, que, ainda que em momentos ela não se coloque acima em papel de liderança, nunca se coloca numa posição abaixo. Molly é uma mulher real, e real o bastante para ser usada como símbolo feminista, sim.

Eu adoro a série Xena, a Princesa Guerreira, um clássico para gente de minha idade que tinha acesso apenas à televisão aberta uns anos atrás. Porém, acho que usar ela como contraponto à Molly é importante nesse tópico. Xena é poderosa, forte, ela definitivamente não precisa de homem nenhum. Apesar disso, para a construção da personagem escolheram masculinizá-la o máximo possível, ao ponto de muito pouco ser visto nela como algo feminino. Seus longos cabelos e corpo escultural talvez lhe sirvam pra mostrar que é mulher, mas, além disso, ela é a representação da força masculina. Ao ponto de ser entendida como lésbica principalmente por conta de sua personalidade forte - como se uma mulher não pudesse ter isso, e ainda assim ser feminina e encaixada num padrão normativo convencional. Não é permitido à mulher num cenário heteronormativo ter força e personalidade marcante ao ponto de não precisar profundamente de um homem ao seu lado para sobreviver.

Molly surpreende, nesse ponto, sobretudo porque apesar de ter uma força dita e considerada como masculina, ela permanece mulher. A linha é bem tênue entre mulher e mulher masculinizada, e o autor quase caiu no segundo abismo, de fato, mas ainda assim conseguimos enxergar Molly do modo como ela é, fora de estereótipos. A ausência de estereótipos, aqui, é o que importa. Ora, não foram os estereótipos que deram à Xena uma cara masculina? Molly está longe deles. É importante retratarmos mulheres - e homens também - como seres humanos em qualquer quesito em nossa vida, seja na hora de conversar com alguém, pensar em alguém ou até mesmo ao produzir algum material ficcional. Nossos personagens precisam ser humanos, e não poços de estereótipos do que é ser homem e do que é ser mulher. Porque nenhum desses nos convém. 


O mais importante, talvez, seja dizer que todos esses itens de construção e representação das mulheres na ficção estão intimamente relacionados com toda representação de "mulher ideal" que temos. Vai além da ficção, obviamente. É algo social, tão vivo em nossas frases, nas palavras que usamos pra falar sobre as mulheres. A arma mais poderosa contra nós, mulheres, são essas palavras, todo esse processo social. É esse processo que legitima a violência, o abuso sexual ou moral, na rua ou em casa. Desconstruir é necessário. E a ficção é um portal pra isso - um portal que precisamos usar. E vamos.

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3 viciados comentaram

  1. Sem dúvidas, esse texto me deixou impressionada.
    Compartilhar é uma obrigação.

    <3

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  2. Olá, querida!

    Que bom que gostou do texto! Avancemos na luta que ela já é nossa <3

    Abraço :3

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  3. Cada vez mais as personagens femininas estão "dando as caras" e fugindo dos estereótipos, claro que ainda tem muitos livros e filmes com os mesmos clichês, mas acho que isso está mudando

    Beijokas da Mylloka :*
    http://myllokasecret.blogspot.com.br/

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