Resenha | O Condenado (Bernard Cornwell)

Nenhum comentário
Bernard Cornwell conseguiu unir em O Condenado o melhor de dois gêneros literários que quase sempre estão distantes: o romance histórico e o suspense policial. Apesar do livro não ser especialmente conhecido no Brasil, publicado ainda em 2009, o nome do autor pesou bastante na escolha da obra quando a vi na estante da biblioteca. Como amante de romances históricos e admiradora de mistérios policias, ver os dois lados unidos foi maravilhoso, mesmo que a leitura não tenha sido tão rápida quanto eu pensei que seria.

Logo quando surgiu meu interesse por romances históricos, lá nos meus 13 anos, o nome de Bernard Cornwell apareceu como um dos autores que eu deveria ler antes de morrer. Na época, amigos de escola interessados em narrativas RPG murmuravam - quase como cúmplices - sobre a qualidade da série As Crônicas de Artur, publicada no Brasil pela editora Record; mas mesmo com esse incentivo, acabou que nunca tive oportunidade de tocar na série. Não sei exatamente o que me fez escolher O Condenado ao invés de As Crônicas de Artur para conhecer o autor, mas talvez tenha alguma relação a meu súbito desejo de ler romances policiais. Pois então, me joguei na leitura e não me arrependi de acompanhar o capitão Rider Sandman na investigação de um crime que mostrou-se mais complexo do que inicialmente parecia, numa Inglaterra de 1800 cheia de peculiaridades sociais.

Sandman é um cara que viu sua vida desmoronar após o pai se suicidar deixando extensas dividas quase impagáveis. Acostumado com a nobreza, mas nem por isso pouco disposto a voltar a trabalhar, ele está em busca de alguma ocupação após comandar a batalha de Waterloo. E então surge uma oportunidade: ele é designado a provar que um crime já solucionado está realmente solucionado. Revisar suspeitos, rever os passos da investigação e determinar que o jovem pintor Corday, acusado de matar uma condessa, é realmente culpado fazem parte de sua atividade. Ele só não imaginou que um trabalho aparentemente tão fácil e rápido poderia desvendar sociedades secretas e um bom motivo para mais de uma pessoa querer a condessa morta.

E o pior, ele só tem uma semana para provar que Corday não é de fato o culpado, já que dali a sete dias o pobre moço será enforcado como parte de sua sentença. Honrado demais para fugir de seu dever, Sandman começa a rondar Londres em busca de pistas. E aqui encontramos, talvez, a melhor qualidade do autor durante essa narrativa. Ele construiu personagens tão únicas, tão elas, que seria impossível imaginar o decorrer da história sem a participação de personagens como o sargento Berrigan, o reverendo Alexander e Sally, que se tornam aliados de Sandman.

Uma foto publicada por Vício em Páginas (@vicio_em_paginas) em


Através do livro, somos capazes de enxergar a sociedade inglesa além de sua arquitetura bonita e costumes: vemos a imundice das prisões, amor ao horror (os dias de enforcamentos viravam verdadeiros festivais e eram venerados como entretenimento) e o preconceito arraigado em numa cultura cristã tão fechada. O jovem Corday, acusado do crime, é como um exemplo vivo - e literário - de como a homossexualidade era tratada pelo povo na época. Todos enxergam o rapaz como menos homem por conta de sua sexualidade, que é deixada bem óbvia pelo autor, e o consideram até menos honrado e menos digno de vida que as outras pessoas. Em contrapartida a esse lado da sociedade, a jovem Sally - que tem todo um quê de prostituta de luxo, por conta de sua carreira no teatro e na dança - tem uma personalidade bem marcante e é apontada pelo autor como uma mulher forte e capaz de ajudar, sim, e de se safar das trapalhadas por si só! Isso é muito importante, muito mesmo, ainda - ou talvez por isso mesmo - que ela seja apresentada como prostituta pelo autor. Ainda que ela não seja protagonista do livro, ser mostrada por uma ótica fora de estereótipos de época e ter força própria pra se sobressair nas situações é importante.

É visível a preocupação do autor em manter o máximo de veracidade histórica possível na narrativa. O livro começa dentro da prisão, mostrando um dia de enforcamento e a importância social e política que essa forma de punição tinha na Inglaterra, e termina da mesma forma. Se Sandman vai conseguir descobrir a verdade por trás do assassinato da condessa, o leitor só saberá bem no final. Bernard Cornwell realmente conseguiu segurar a trama e o mistério até o fim do livro, sem deixar a história cair na mesmice: o enredo foi elaborado muito bem.

Esse é um daqueles livros de suspense em que formar teorias sobre suspeitos é quase impossível. As informações chegam à nós com a mesma velocidade que chegam à Sandman, e isso nos torna bem próximos do protagonista. Ainda assim, as primeiras páginas passaram bem lentas pra mim, e só vi o livro tomar um ritmo bacana depois de 150 páginas, quando a vida tenebrosa da condessa vai saindo das sombras e mostrando à Sandman sua verdadeira face. Ela era uma mulher ardilosa, que traia o marido e subornava os amantes, ameaçando contar a toda a sociedade burguesa os segredos de cada um deles. Achar o verdadeiro assassino diante um cenário desse é quase impossível, mas Sandman continua tentando salvar Corday da forca até os últimos minutos.

No fim, fiquei bastante empolgada para conhecer os outros livros do autor. Com certeza, já estão na minha meta de leitura do ano. E viva à biblioteca, que me proporcionou uma leitura diferente e bem bacana! <3

Onde comprar: Saraiva - livro físico R$56,60 | livro digital R$36,10
Submarino - livro físico R$56,61
Livraria Cultura - livro físico R$62,90  
Autor: Bernard Cornwell
Editora Record
Ano 2009 
Skoob
Emprestado da biblioteca (Fundação João Fernandes da Cunha - Campo Grande, Salvador)
Nota 4,5 de 5 estrelas | 9 de 10
Sinopse: Considerado o melhor romance histórico publicado na Inglaterra em 2001, O Condenado apresenta Bernard Cornwell em sua melhor forma, com elementos de literatura policial que resultam em um thriller realista, ambientado na Londres do início do século XIX.
Charles Corday é acusado de assassinar uma condessa de quem pintava o retrato. Esquecido na temida Prisão de Newgate, restam-lhe apenas sete dias de vida antes de ser enforcado. Rider Sandman, um capitão temperamental que vive tempos difíceis depois de participar da Batalha de Waterloo, é convocado para investigar o crime. A investigação o levará a uma emocionante jornada pelos fétidos porões da prisão e pelos perfumados salões da aristocracia londrina. Enérgico e durão, Sandman é hábil com a espada e exímio jogador de críquete. E em sua arriscada empreitada conta apenas com a própria inteligência e um grupo de aliados nada convencionais: Sally Hood, modelo vivo de passado comprometedor; lorde Alexander, um fervoroso reverendo e também amante do críquete; e o velho companheiro de batalha, sargento Berrigan.
Mestre em personagens marcantes, Cornwell faz desse grupo um quarteto inesquecível, que luta contra nobres ricos e cruéis, a fim de salvar a vida de um inocente. Apontado como o melhor escritor de romances históricos de sua geração, o autor combina o gosto por detalhes com um enredo de tirar o fôlego e um estilo cujo realismo é por vezes chocante.

Nenhum comentário :

Postar um comentário