Resenha | Neuromancer (William Gibson)

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Limiar entre o dark mundo das drogas e a matrix, Neuromancer, do autor William Gibson, é como uma década de 80 alterada por um futurismo precoce e crimes virtuais. Publicado pela primeira vez em 1984, o livro carrega consigo todo peso das luzes neon que circundavam Tóquio nessa época, mas cria também uma nova noção de temporalidade ao ponto que antecede vários dos avanços tecnológicos que nós apenas vimos com clareza agora no século 21. Impressionante? Muito. Criar a noção de virtualidade - estar em um espaço virtual - antes mesmo da expansão da internet talvez tenha sido um dos méritos mais importantes do autor, que carrega consigo, além disso, o ônus de ser o pai do sub-gênero literário cyberpunk.

O livro foi uma das minhas experiências mais recentes com o Sci-fi, como eu falei anteriormente nesse post. Lá, eu já contei um pouco de minha expectativa inicial com a leitura, depois de já ter passado da metade do livro. Mesmo agora, depois de uma semana pensando sobre o livro e o seu final, ainda estou um pouco impressionada como a ficção cientifica se esforça em surpreender o leitor nos mínimos detalhes, do inicio de suas obras até os desfechos. William Gibson me deu mais do que eu conseguiria imaginar lendo a sinopse de seu livro.

O livro nos apresenta o ex-cowboy (hacker) Case, que, apesar do titulo de cowboy, não segura armas em duelos no velho oeste, e, sim, é especialista em crimes virtuais de invasão e roubo de informações no que Gibson chama de matrix. Se eu pudesse descrever Case tal como o autor me fez enxergá-lo, eu diria que ele é um viciadão em drogas pronto a ignorar suas próprias covardias para conseguir mais uma dose. Mesmo suas relações parecem frívolas e distantes, como se sua consciência estivesse sempre a meio passo do delírio imagético que alguns comprimidos podem provocar. Por isso, após perder alguém que aqui eu chamarei de amante - nem amiga, nem namorada, uma conhecida que gerava nele um afeto vago e desejo -, a vida de Case parece ainda mais confusa do que normalmente é.


“Cyberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças aprendendo altos conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de dados de todos os computadores do sistema humano."

Quando Molly, uma samurai das ruas de concreto, aparece de frente a ele para fazer uma proposta, não havia nada que ele pudesse fazer a não ser aceitar. O serviço era encoberto com uma pesada camada de mistério - e, por isso, perigo -, mas a promessa era boa demais para que Case não topasse participar daquele estranho esquema junto à Molly e Armitage, o “chefe” dos dois. Além de dinheiro no fim do processo, ele ganharia o direito definitivo de voltar à ativa com sua função de cowboy, coisa que ele perdeu há alguns anos após tentar passar a perna num dos chefes da máfia de matrix, por assim dizer. Voltar a ativa era algo que ele queria profundamente.

Mas o próprio personagem está tão confuso quanto o leitor. O autor não dá explicações sucintas para nada, nem para a missão, nem para as ações ou lugares onde os personagens irão para cumprir a missão. É como um grande quebra-cabeça que você precisa montar junto com Case e Molly, para entender exatamente para que eles estão fazendo tudo aquilo. Quem, de fato, é o mandante daquela operação e qual seu objetivo? A experiência inicial do leitor é de confusão, e muitas vezes você não está entendendo (porra nenhuma!!!) do que está acontecendo. É um emaranhado de cenas e missões sem explicações, que só ganham sentido para lá da página 200, e ainda assim não completamente. E, veja, esse é o objetivo do autor. Sem isso, o livro não seria o que ele é, e provavelmente o leitor nem se sentiria tão instigado a prosseguir por aquelas páginas. Mas essa também é a ruína da obra para aqueles mais acostumados a obras fáceis e histórias dadas. Resultado: uma busca rápida por resenhas no Skoob te mostra um turbilhão de resenhas beirando a adoração e o ódio, muitos dizendo que não entenderam muita coisa do livro.


Case - crédito

A narrativa do autor me cativou por ser extremamente descritiva, o que nos ajuda a adentrar nesse universo futurista em plenos anos 80. É necessário. Mas ainda assim, muitas vezes a leitura segue de modo lento. Além de criar seu próprio vocábulo, o autor usa muitos termos que tendem ao cientificismo, o que pode atordoar alguns leitores. Inclusive, recomendo fortemente ler todo o glossário no fim do livro (e entender  os termos) antes de começar a ler o livro… Porque ele já começa exigindo isso!

Com certeza, não é uma leitura para todas as idades, e tampouco para todo e qualquer leitor. É uma história de visual sujo e interpelado constantemente por uso de drogas entorpecentes e crimes. Sangue, a veia dura pelo uso da siringa, roubos, morte; a narrativa é quase uma descrição do submundo das esquinas de nosso mundo ainda hoje, e não poupa descrições pesadas. Não há nada romantizado no livro, nem mesmo as relações, que, como eu já disse, parecem sempre meio turvas pelo uso dos entorpecentes.

E ainda assim, o autor nos faz sentir tanto, mas não o suficiente para o drama. Em contrapartida, quanto mais informação você e Case conseguem, mais querem saber. Os desejos do personagem são os seus, as dúvidas são compartilhadas, e esse é o elo que você precisa ter para se apaixonar pelo contraditório Case. (Digo isso, mas, vamos lá, o amor de minha vida é Molly!).

Esse é apenas o primeiro livro da Trilogia do Sprawl, publicada no Brasil pela Editora Aleph. Os próximos livros da série, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, também já foram publicados pela editora e só estou esperando um dinheirinho extra pra comprar <3 Ou então esperar o próximo amigo que irá me emprestar as obras, como me emprestaram esse primeiro livro da trilogia! (risos)

Onde comprar:  Livraria Cultura -  ebook R$26,40
Saraiva - livro físico R$44,00 - ebook R$26,40
Fnac - Edição especial 30 anos 
Submarino - livro físico R$34,19 - edição especial 30 anos R$ 59,90 
Neuromancer
Autor: William Gibson
Editora Aleph
Skoob
Nota 4/5 estrelas | 9/10
Sinopse: Um hacker renegado, uma samurai das ruas, um fantasma de computador, um terrorista psíquico e um rastafari orbital num thriller sexy, violento e intrigante. De Tóquio a Istambul, das estações espaciais ao não-espaço da realidade virtual, o tenso jogo final da humanidade contra as Inteligências Artificiais...

Evoluindo de Blade Runner e antecipando Matrix, Neuromancer é o primeiro - e ainda hoje o mais famoso - livro de William Gibson. É considerado não só o romance que deu origem ao gênero cyberpunk, mas também o seu melhor representante. Edição especial com nova tradução, nova capa e projeto gráfico, novo prefácio e notas explicativas.

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