Resenha | A mão esquerda da escuridão (Ursula K. Le Guin)

Um comentário
Ursula K. Le Guin, uma das autoras mais famosas de ficção cientifica, conseguiu ir além na luta feminista pela igualdade de gêneros. Usando viagens intergaláctica como pano de fundo e um homem muito humano como protagonista, ela nos leva ao mundo gelado de Gethen, onde tudo é inverno - mas nem de longe isso é o de mais anormal no planeta. Já imaginou um mundo sem as barreiras sociais que permeiam o homem e a mulher? Um mundo sem responsabilidades de sexo, sem machismo, sem homofobia, sem violência contra o gênero mais fraco? Bem vindo ao planeta Inverno de Ursula.

Publicado pela primeira vez em 1969, o livro narra uma sociedade quase medieval num imenso mundo de gelo sem fim. A Mão Esquerda da Escuridão é um livro de ficção cientifica, sim, mas o que Ursula quer fazer é apontar como o sexo (de um modo geral) moldou nossa sociedade de uma forma doente. Como gerar essa reflexão? Criando uma sociedade em que os gêneros simplesmente não existem e o sexo não é ferramenta nem de prazer, nem de poder, como em nosso mundo. Somos apresentadas, logo de inicio, à Genly Ai, um homem de nosso planeta que foi mandado a uma missão até o estranho planeta de Gethen, onde os humanideos não são homens nem mulheres - e ainda assim os dois - à todo momento.


“Como se odeia ou como se ama um país? [...] Conheço gente, conheço cidades, fazendas, montanhas, rios, rochas, sei como, ao entardecer do outono, o sol cai oblíquo sobre certa terra arada nas montanhas; mas qual a finalidade de dar fronteiras a isto tudo, ou dar-lhe um nome e deixar de amar, no momento em que muda de nome?”

A missão de Genly exige que ele convença governantes locais a se unirem a um tipo de ordem universal que une raças “humanas” - no caso, pensantes e organizadas em sociedade - para troca comerciais e de conhecimento. Em Gethen, há muitos desafios quanto à isso. Gethen é um planeta de nações que não gostam uma das outras, mas não se dedicam à guerra, algo que intriga Genly.  Todos, definitivamente todos, parecem carregar caracteristicas tanto femininas quanto masculinas, e a procriação da especie transforma, momentaneamente, cada um do casal em algum dos gêneros. O efeito disso sobre a sociedade é muito visível: qualquer um pode ser mãe, pai, político, ou qualquer outra coisa. Para Genly, um homem, entender o funcionamento dessa sociedade exige muito mais que abdicar da ideia de homem ou mulher, exige que ele passe a ver as pessoas não como ela enxergava aqui - um homem, uma mulher -, mas como pessoas. Só pessoas. Nada de papéis sociais implícitos, como ele estava acostumado a ver.


“Creio que ele acha que chorar é mau ou vergonhoso. Mesmo quando estava muito mal e efraquecido, nos primeiros dias da nossa fuga, ele escondia o rosto de mim quando chorava. Que razões pessoais, raciais, sociais, sexuais - que eu sei? - tem ele para não chorar?” - questiona Estraven, gentheiano, sobre Genly Ai

A história dá diversas reviravoltas, enquanto Genly tenta entender essa estranha sociedade ao mesmo tempo que tenta cumprir sua missão. O livro acaba se tornando um embate de joguinhos políticos internacionais, e Genly, no meio de tudo isso, corre perigo. Ele encontra amigos, descobre o amor, vê na face do inimigo um amigo fiel, desbrava o continente pra se salvar… São muitas coisas, mesmo, nas 295 páginas que Le Guin escreveu.

Apesar da história ser bem movimentada, a narrativa sempre em primeira pessoa dá um toque mais intimista para tudo que está acontecendo. Para alguns, isso transformará a leitura num trajeto lento e que precisa ser trilhado com paciência; para mim, que adoro entrar na cabeça de personagens interessantes, essa narrativa foi uma dádiva. Quando a autora decide abrir o leque para um outro personagem - que ninguém imagina ganhando tanto destaque -, a leitura torna-se ainda mais interessante.

Gethen e sua falta de guerra e sexo por prazer me lembrou uma coisa interessante que somos apresentadas à filosofia logo no inicio de nosso aprendizado na disciplina. O desejo, dizem, movimenta o homem à viver, e movimenta outras coisas, como a guerra. Fiquei pensando se a autora pensou nesse detalhe ao criar uma sociedade tão ambigua, em que os seres são homens e mulheres e não pensam no sexo como prazeroso. Uma sociedade que não está em busca do desejo ou prazer, seja ele de qual forma for… Só está ali para sobreviver, e nem sempre com regalias. Gethen chega a soar um mundo medieval, sem tecnologias apuradas, mas ainda assim com uma gente de intelecto desenvolvido e política acirrada. Assim seriamos nós sem o sexo? A autora parece perguntar ao leitor isso à todo momento.

Como uma interessada pelas questões de gênero e afins, a leitura foi como olhar para um todo e subentender a origem num único detalhe. Longe de estar aqui dando um veredito sobre a qualidade, ou não, do livro, acho que quem se interessa pelo mesmo assunto pode se apaixonar pela autora assim como me apaixonei. A leitura é lenta, mas não parada, e Le Guin sabe enfiar o leitor na cabeça de seu protagonista como muito autor não sabe fazer. Quem sabe, Genly Ai talvez seja a própria autora conversando conosco sobre um tema, tão vivo e humano como ele é. Esse é o livro que prova que ficção cientifica não é puramente sabres de luz e batalhas no espaço; um bom romance com toque psicológico e analítico pode ser, também, uma boa ficção cientifica, como A Mão Esquerda da Escuridão é.


“A luz é a mão esquerda da escuridão e a escuridão é a mão direita da luz. Vida e morte são como amantes na unidade do êxtase - dois em um - como mãos postas, uma contra a outra, são o princípio e o fim.”

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Autora: Ursula K. Le Guin
Editora Aleph
Ano 2014
296 páginas
Skoob
Nota 9/10 | 4,5 estrelas de 5
Sinopse: Genly Ai foi enviado a Gethen com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal. Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. Nessa sociedade complexa, homens e mulheres são um só e nenhum ao mesmo tempo. Os indivíduos não possuem sexo de?nido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero, sendo essas as bases da vida do planeta. Mas Genly é humano demais. A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.

Um comentário :

  1. NOSSA, esse livro parece incrível, eu com certeza vou procurá-lo!


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