Resenha | Toda luz que não podemos ver (Antonhy Doerr)

Um comentário
Já tentei começar essa resenha de diversas formas diferentes, e haja criatividade para reformular o primeiro paragrafo tantas vezes! Verdade é que, mesmo depois de quase três meses da leitura, ainda não sei muito bem o que dizer. Toda luz que não podemos ver me encantou, mas também me pôs de joelhos diante a realidade humana e dura que foi a guerra. Com protagonistas cruelmente reais e uma narrativa que tira e te dá de volta o fôlego várias vezes durante a leitura, eu não estaria exagerando se dissesse que foi um dos meus livros preferidos nesses últimos anos. E vou explicar mais ou menos o porquê.

Algumas histórias se mesclam durante as mais de 500 páginas do livro. É com poesia em prosa, uma escrita próxima ao perfeccionismo barroco, que Anthony Doerr nos conta a história da jovem francesa - e cega - Marie-Laure e do igualmente jovem nazista Werner. A narrativa é pesada, descritiva, mas flui com muita naturalidade apesar disso. Como o autor conseguiu fazer isso? Eu não sei. Só sei que não consegui largar o livro enquanto virava suas páginas, e minha ansiedade se agarrava a cada letra, virgula e ponto que ele punha em seu texto.

Foram 10 anos escrevendo o livro. Ao pegar Toda luz que não podemos ver para ler não espere encontrar um texto frouxo e com pontas soltas, muito menos "mais um livro sobre a Segunda Grande Guerra". Não é. Detalhes são tão importantes durante a narrativa, que se você não presta atenção em algum, pode acabar perdendo algum fio que o autor deixou ali para te dar respostas mais tarde. E é assim que ele faz: você vai viajando pelo passado e presente de Marie-Laure enquanto a jovem francesa foge da violência da guerra junto a seu pai.

Já Werner, outro das personagens principais, é um órfão alemão simpático e inteligente que vai parar na juventude hitlerista após descobrirem seu talento nato: ele, sozinho, aprendeu a consertar e montar rádios complexos. Durante a Segunda Guerra, onde a comunicação ainda era um problema, o rádio apareceu como uma ferramenta indispensável - e Werner era, definitivamente, o garoto dos rádios. Usado diretamente em estrategias para localizar e destruir rádios inimigos, Werner é um daqueles personagens que impressiona pela simplicidade. Ele estava, definitivamente, matando pessoas, mas é impossível sentir que esse garoto é um vilão. Doerr não escolheu personagens para fazerem a vilania que tanto estamos acostumados a ver atrelados a personagens atuantes no nazismo.

Se os personagens principais surpreendem - afinal, onde você verá uma heroína como Marie-Laure? -  os secundários e tramas paralelas não deixam a desejar. Por exemplo, o pai da garota carrega junto de si um raro diamante (dizem que amaldiçoado) caçado por nazistas, que a esse momento pilhavam cidades e mais cidades francesas roubando suas obras de arte. Mesmo o mais perverso dos personagens que acabam aparecendo do meio para o fim do livro, não são vilões. As dores, seja ela da saudade, da doença ou do desespero são pesadas demais para que o leitor ignore.

O modo como o autor costurou as diversas personagens ainda me deixa um pouco chocada, mesmo depois de tanto tempo que li. O que ele fez foi magia, não escrita. O que a vida de uma jovem cega francesa tem a ver com um jovem nazista? Como elas se conectam? Eu estava ansiosa para saber, e quando li... Essa é a beleza do livro. O suspense foi criado a partir do modo como o autor escolheu recortar sua narrativa em vários blocos, vários pontos de vista. Algumas surpresas ainda são reservadas até a última página.

Mas é verdade que a narrativa muitas vezes caminha a passos lentos. Eu gosto de narrativas tão detalhadas quanto a que Doerr criou, mas pode ser que as diversas discrições de circuitos de rádio e equações que aparecem no livro assustem leitores menos acostumados. Fato é: eu sou uma pessoa que dificilmente gosta de continuação de livros. Eu gosto do ato de começar e terminar um livro e saber que só isso é necessário para que eu saiba toda a história. Mas terminei a leitura de Toda luz que não podemos ver para entrar, automaticamente, numa ressaca literária pesada. Tudo que eu queria era mais das personagens de Doerr, mais de Marie-Laure e mais de Werner. Mais disso que nos faz humanos, mas que ás vezes não consegue ser traduzido na ficção que lemos.

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Autor: Anthony DoerrEditora Intrínseca
528 páginas
Nota 10
Skoob
Sinopse: Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu. Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.Uma história arrebatadora contada de forma fascinante. Com incrível habilidade para combinar lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, o premiado autor Anthony Doerr constrói, em Toda luz que não podemos ver, um tocante romance sobre o que há além do mundo visível.

Um comentário :

  1. Legal. Também não gosto de continuação de livros pelo mesmo motivo que expôs.
    Grata pela resenha... tô muito a fim de ler esse livro.

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