Resenha | A cidade do sol (Khaled Hosseini)

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Há apenas dois tipos de reações ao ler Cidade do Sol: ou a pessoa ama, ou ela odeia e repudia totalmente do inicio ao fim. Estou inclusa, desde a primeira página lida, no primeiro grupo. Eu não só adoro o livro - e o li pela segunda vez agora - como acho que Cidade do Sol é muito melhor que O Caçador de Pipas, livro que deu a Khaled Hosseini o sucesso que agora ele tem. História, cultura e romance; Hosseini parece escrever como alguém que tece um tapete complexo e colorido, mixando a cultura afegã, sua história de ditadura e guerra à dor profunda, esse consegue ser um livro que mais parece um retrato de muitas vidas, vidas além das personagens centrais ou secundárias.


A personagem principal de Hosseini talvez seja o próprio Afeganistão durante os anos 70 até meados de 2000. A história de duas mulheres vai se unir nesse meio tempo, e provar que o amor pode nascer mesmo nas situações mais aterradoras. Mariam é a primeira dessas mulheres. Filha bastarda de um homem rico, ela cresceu a vida toda sem sair de casa junto com sua mãe, numa parte isolada e deserta da cidade.
Não aprendeu a ler, porque a mãe achava desnecessário, e cresceu ouvindo de sua figura materna que sofreria muito se saísse de casa e fosse conviver com outras pessoas: "vão apontar pra você enquanto te chamam de harami (filha bastarda)!". Tudo que Mariam mais amava era Jalil, seu pai, mesmo que ele não tivesse assumido sua paternidade. As visitas que o homem fazia a filha era o que a garota mais esperava durante a semana. E foi esse amor que deu a ela coragem: ela fugiu de casa. Foi encontrar o pai. O desfecho disso não poderia ser pior, e no meio tempo de apenas um dia Mariam descobriu a faceta covarde do pai - que a deixou dormir na rua - e como o destino pode ser cruel.

Sua mãe estava morta. Seu pai, por pressão das outras esposas, não queria ficar com Mariam em sua casa e, quando a menina tinha apenas 15 anos, deu sua mão em casamento para Rashid, um sapateiro que morava em outra cidade. E a jovem que já sabia muito bem o que era dor, descobriu que ela estava só começando.

Enquanto isso, todo o contexto de queda de presidentes, golpes e guerra são contados pelo autor. As histórias não só se misturam - uma faz parte da outra. E foi no dia do golpe que pôs os comunistas no poder que Laila, a segunda mulher protagonista desse livro, nasceu. Diferente de Mariam, Laila é filha de um professor universitário e cresceu ouvindo que está no mundo para fazer coisas importantes e grandes. Muito amada pelo pai, a menina sofre com a ausência sentimental da mãe: ela está na casa, mas não tem forças para lutar contra a depressão que a tomou depois que seus filhos mais velhos foram lutar na guerra. Laila não imagina o quanto sua vida vai mudar em poucas semanas por causa dessa guerra, que parecia tão distante para sua cabeça de criança. Bombardeios tomam a cidade e ela perde amigas próximas, seus vizinhos fogem do país, e seu melhor amigo (pelo qual ela nutre uma paixão recíproca) também foge do país prometendo voltar por ela.

O mundo gira de uma forma tão bizarra, que em poucos dias Laila não é mais a adolescente feliz, e sim uma sobrevivente de bombardeio e agora segunda esposa de Rashid. Ela passa a viver junto com Mariam, que agora é uma mulher muito mais velha e de pele resistente a dor fisica e sentimental. Uma mulher dura. E precisa ser mesmo. Rashid se mostrou um marido impiedoso e grande demais para ser combatido, e frequentemente espancava Mariam, justificando com motivos tolos. Laila e seus olhos azuis conquistaram Rashid logo de cara, e ela tinha um motivo para não negar o pedido de casamento: além de estar orfã, sozinha num país em crise e guerra, também está grávida de Tariq, seu amigo e amante que partiu do Afeganistão.

O livro dá muitas reviravoltas. Entre tentativa de fuga das mulheres, surras e fome total, não só as personagens como todo o país parecem caminhar tentando sobreviver a uma existência tomada pela violência. Hosseini dosa o contexto político com o dos personagens, e vamos assistindo - as vezes até com um pouco de raiva - a história caminhar para ainda mais dor. Mas se existe uma coisa que faz com que Hosseini mereça palmas é o final que ele deu a essa história, apesar de algumas pequenas coisas terem me incomodado. O final foi bem realista, bem bacana, mas parte dele pareceu um pouco comprado, com toda aquela cena dos Estados Unidos salvando o Afeganistão e dando de volta a seu povo liberdade e paz. O buraco é mais embaixo, né, gente... Não acredito que tudo tenha sido flores com a chegada dos Estados Unidos ao país, não; como o país extremamente capitalista que é, obviamente que o EUA não "salvaria" um país de graça porque é bonzinho, como o autor se esforçou em fazer parecer. Apesar disso, foi só um pequeno pedaço do final, então não compromete o resultado do livro.

Longe de ser um conto de fadas e um livro convencional com seu felizes para sempre, A cidade do sol conquista a todo momento pelo seu extremo realismo. Realismo de sentimentos, de enrendo. O final não foi tão vago e irritante quanto O Caçador de Pipas e parece ter dado um ponto final digno para as mulheres que sofreram tanto para trilhar até o final. Um caminho de mais de 10 anos.É uma história que nos faz pensar se até matar é ruim, quando se está vivendo sob pressões intensas. Para quem gosta de um romance histórico realista, e tem interesse por conhecer a história por trás do Afeganistão, recomendo bastante o livro. Caso você tenha lido O Caçador de Pipas e não gostou da leitura - como eu - e por isso fique com um pé atrás com essa obra daqui, recomendo que dê uma chance. Provavelmente não vai se arrepender.

Autor: Khaled Hosseini
Editora Nova Fronteira
368 páginas
Skoob
Nota 9/10 | 4,5/5 estrelas
Submarino | Livraria Cultura | Saraiva | Fnac
Sinopse:A Cidade do Sol - Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos.
Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz: "Você pode ser tudo o que quiser." Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Confrontadas pela história, o que parecia impossível acontece: Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a história continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do "todo humano", somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios.

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