Resenha | A Tempestade - Mangá Shakespeare

Um comentário
Não sei se considero perigoso ou genial transformar uma peça teatral clássica num mangá. Tão arriscado quanto ousar publicar algo do gênero, é também ler - e não só aceitei o desafio como acabei gostando bastante da leitura de A Tempestade, um dos mangás de uma série de 5. Apresentada como uma maneira "divertida" de conhecer alguns dos textos clássicos de Shakespeare, a série Mangá Shakespeare, publicada pela editora Galera, tem, sim, seu mérito e sabe cativar os leitores.

Em A Tempestade conhecemos os lados mais sombrios e cativantes do homem enquanto ser vivo. É como uma verdadeira tempestade de emoções, que vão do ódio ao amor e perdão em muito pouco tempo, assim como a tempestade que dá inicio à história na primeira cena do mangá. E tudo começa quando Próspero, um poderoso mago e duque legítimo de Milão, decide dar inicio à sua vingança, motivada pela traição que sofreu de seu irmão, Antônio. Para isso, ele provoca uma grandiosa tempestade que faz naufragar o navio em que Antônio estava junto ao rei de Nápoles, Alonso, e seu filho, Ferdinando. 

Todos vão parar na ilha que agora pertence à Próspero, e o objetivo do mago é tomar de volta o ducado que antes era seu, mas foi tomado por seu irmão. Nesse ínterim, os outros personagens da trama vão sendo apresentados para o leitor, como Miranda, filha de Próspero, e Calibã - filho de uma bruxa - e Ariel - um espirito -, que são escravos de Próspero. 

É complicado explicar de fato a história sem que fique parecendo que estou dando spoilers, até porquê ela não é lá muito grande. Por isso, vou tentar me ater às qualidades ou possíveis defeitos do mangá enquanto arte. Pra inicio de conversa, apesar dos vários fatores positivos da obra, não consigo considerá-la como um mangá. Calma, vou explicar. Está mais para uma história em quadrinhos em preto e branco, e isso fica evidente principalmente pelos traços do desenho, embora os personagens tenham adquirido características de traço muito comuns em mangás asiáticos. É quase como se tivessem feito desenhos coloridos para em seguida transformá-los em tons de preto e branco.


O ponto interessante é que, com suas várias ressalvas, os produtores tentaram manter o texto mais similar possível com os versos originais. Como é uma tradução do texto original, claro que nem tudo ficará exatamente no formato da peça no idioma de origem, mas o texto visivelmente não é adaptado. 

O cenário, traços do personagem e modo como as imagens se mesclam nas páginas conseguem casar muito bem com a poesia da peça em si - é quase como se o visual fosse um complemento muito bem elaborado do texto. O que mostra que eles fizeram um trabalho bem feito e planejado, nos mínimos detalhes de cada página. Só senti falta, de fato, de um desenho mais limpo, já que eles decidiram investir num desenho mais próximo à HQ, só que em preto e branco. Algumas páginas ficaram bastante carregadas com cinza e preto.

Com toques de comédia que o próprio texto da peça carrega, a leitura flui muito rapidamente. Em menos de 2 horas você lê as cerca de 209 páginas de história, e se encanta com o final que é dado. Um verdadeiro conto de traição e perdão, em um retrato da sociedade do séc.XVI-XVII.  

Esse foi apenas o primeiro mangá da série que li, mas já recomendo fortemente. Ler o clássico numa HQ - com seus traços aqui e ali de mangá - é uma experiência no mínimo encantadora, e o trabalho de ilustração é como um complemento da poesia de Shakespeare, o que, por si só, já vale muito a pena de ser visto.



Série Mangá Shakespeare
Editora Galera
216 páginas
Nota 4/5 | 9/10
Sinopse: A tempestade é uma história de vingança, é uma história de amor, é uma história de conspirações oportunistas, e é uma história que contrapõe a figura disforme, selvagem, pesada dos instintos animais que habitam o homem à figura etérea, incorpórea, espiritualizada de altas aspirações humanas, como o desejo de liberdade e a lealdade grata e servil. Uma Ilha é habitada por Próspero, Duque de Milão, mago de amplos poderes, e sua filha Miranda, que para lá foram levados à força, num ato de traição política. Próspero tem a seu serviço Caliban, um escravo em terra, homem adulto e disforme, e Ariel, o espírito servil e assexuado que pode se metamorfosear em ar, água ou fogo. Os poderes eruditos e mágicos de Próspero e Ariel combinam-se e, depois de criar um naufrágio, Próspero coloca na Ilha seus desafetos (no intuito de levá-los à insanidade mental) e um príncipe, noivo em potencial para a filha. Se o amor acontece entre os dois jovens, se a vingança de Próspero é bem-sucedida, se Caliban modifica-se quando conhece os poderes inebriantes do vinho numa cena cômica com outros dois bêbados, tudo isso Shakespeare nos revela no enredo desta que por muitos é considerada sua obra-prima – uma história de dor e reconciliação. 

Um comentário :

  1. Olá Arine \o/
    Eu não tinha ouvido falar sobre essa série da Galera, mas o engraçado é que eu conheci essa história de Shakespeare justamente por um outro HQ, haha. Foi uma graphic novel, era tudo colorido e tal, li em uma hora só, mas adorei a experiência.
    Acho legal criarem adaptações de clássicos nesses formatos, pois conseguem atrair atenção de um outro público :)
    Vou procurar essa série por aqui
    Kissus

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