Resenha | Sereia Negra (Vinicius Grossos)

Um comentário
Saudações!
        Sai mais uma resenha para vocês. Tem mais algumas esperando para serem escritas aqui, então aguardem!



Sereia NegraAutor: Vinícius Grossos
Editora Selo Jovem
204 páginas
Skoob
Nota  8  | 3/5 Estrelas

Sinopse:
“Um peixe fora d’ água” – foi exatamente assim como Inês se sentiu a vida toda. No seu aniversário de quinze anos, Inês têm todos os seus sentimentos de revolta aflorados de forma aplacável; seu pai a abandonou assim que ela nasceu, sua mãe morreu no parto, ela nunca teve amigos, nem nunca se sentiu atraente o suficiente para os meninos com quem tivera contato. É então que Inês decide que sua vida deve ter uma mudança radical. Mal saberia ela que essa mudança estava mais próxima do que ela imaginava... Numa tempestade repentina e sobrenatural, Inês é tragada pelos mares – tragada pelo seu mundo. Inês é uma sereia. E mais do que isso, ela é uma lenda viva – um ser aguardado por todas as sereias e tritões de Atlanta, um dos vários reinos que existem abaixo do mar sem o conhecimento dos humanos, como a grande salvadora deles. Inês é a Sereia Negra, a única sereia de cor negra de toda a história! Mesclado de fantasia e magia, lendas gregas e brasileiras, somado a um retrato da nossa realidade social, Sereia Negra promete te mostrar uma nova visão não só desses seres fantásticos, mas de questões da vida que vão além da fantasia.




Que a literatura brasileira contemporânea vem ganhando força, todos sabem. É fácil notar os sinais. No entanto, parar pra observar o que é produzido nos mostra um cenário pouco animador e, por vezes, triste: autores brasileiros não escrevem sobre cultura, seres ou cenários nacionais. E Vinicius Grossos, autor jovem na profissão - autor - e na idade, se destaca justamente por esse detalhe. Sereia Negra é um livro de ficção sobre sereias, mas, acima disso, é uma denúncia ao preconceito dentro de um país conhecido por sua mestiçagem de cores, povos e nações. 

          
            Durante a história, acompanhamos a trajetória de Inês, uma garota negra e de cabelo black power que sofre com o abandono familiar. Orfã de mãe, e sem nenhum conhecimento de quem seja seu pai, Inês é criada pelo avô rabugento desde que nasceu até seus enfim 15 anos. Uma data marcante para muitas meninas, quase uma transição vinda de uma tradição que talvez remetam aos bailes de apresentação de filhas à corte em séculos passados, o 15º aniversário de Inês representará muito mais que um assoprar de velas ou dança em meio ao salão. Será uma mudança definitiva de corpo e ambiente; só lhe restará sua alma, com toda a dor provocada pelo bullying que sofria no colégio e sentimento de solidão. Afinal, a menina negra do "cabelo duro" e fã de rock, de fato, deveria se sentir deslocada em meio a um interior do Rio de Janeiro. Imagine, então, ela no fundo do mar.


           Em seu 15º aniversário, uma sequência de acontecimentos transforma o corpo humanóide de Inês em um biologicamente meio peixe, meio gente. Uma cauda negra como sua pele tomou lugar das pernas, e ela se vê perdida no fundo do mar. Quando um tritão, de cor inversa a sua, branco como uma nuvem, a encontra e leva para o reino no fundo do mar, o mundo de Inês recebe mas uma guinada de 360º. Como se apenas virar sereia não bastasse, ela descobre que existe uma lenda sobre ela, que fala de uma epopeia de dor, guerra e mortes, onde ela seria a salvadora de todas as criaturas marinhas. E, logo em seguida, ela descobre também que deve se casar com um tritão escolhido pelo rei, apesar e seu coração já pertencer a um jovem pescador que acabou conhecendo pouco depois que se transformou em sereia, antes de ir parar no reino marinho. 


         O livro é curto, e contar mais da história estragaria muito dos mistérios que costuram a trama. Só basta dizer que, dentro do circulo de amizade de Inês há um traidor, e que ele fará de tudo para ter o poder do fundo do mar nas mãos. Algo clichê, de fato, mas que passa despercebido pela forma como o autor escolheu construir a história. Não há mocinhos muito bons ou vilões muito maus; são homens e mulheres - tritões e sereias - que tiveram que fazer escolhas ao longo de suas vidas. Ás vezes, não muito boas, mas apenas escolhas. E nesse ínterim, descobrimos muito do passado não só de Inês, mas também de todo reino marinho - porque os dois andam muito mais juntos do que a pobre menina esperaria.


        Uma história de dor, ódio e amor, tudo aliado a uma aventura sem precedentes rumo a salvação do mundo. Do inicio ao fim do livro, a discussão sobre preconceito está presente, apesar de não da maneira mais exata possível. Como negra, e moradora de uma das cidades mais negras do país, acho que o preconceito não é tão evidente e escrachado como o apresentado no livro, mas está ali em muitos momentos da vida cotidiana. O pensamento da "Casa Grande", como diria o historiador Sérgio Buarque de Holanda. O preconceito está no ato de você atravessar a rua porque está vendo um jovem negro se aproximar, com medo de ser assaltada(o). Entendem? 


          Como alguns outros livros da editora, esse também peca um pouco com a correção textual, e está cheio de erros de concordância ou de digitação. Apesar disso, o autor escreve bem, e goste da trama inovadora que ele trouxe, como já disse antes. Recomendo para todos que querem ver a sereia Iara, e outros seres da cultura brasileira dentro de um livro totalmente brasileiro, desde seu autor até seu contexto. Se joguem!  

Um comentário :

  1. Tem surgido autores nacionais que conseguem produzir literatura de fantasia e ficção cientifica muito bem, e o melhor, dialogando com a nossa realidade!
    Espero que mais editoras abram espaço para os novos escritores nacionais, tem muita coisa boa sendo produzida e que só precisa de uma chance.
    Curti muito a resenha e a indicação. Pena os problemas de revisão, isso desestimula muita gente a continuar a leitura.

    bjim!

    Fran

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