Resenha | O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)

Ganhador do prêmio Pulitzer de Ficção na década de 50, O Velho e o Mar é um retrato do que é ser humano além dos fatos, além do próprio dia-a-dia. A história do velho Santiago e sua relação com o mar é como uma história do que é ir atrás de objetivos - qualquer que sejam eles - num mundo de natureza tão peculiar quanto o nosso. É um livro que encanta, sobretudo, pelo modo como o ser humano e suas emoções são dissecados, ambos, em cerca de 100 páginas de narrativa ininterrupta, quase sem personagens nem diálogos. 

O livro tem como personagem principal Santiago, pescador que já está há 84 dias sem pegar um único peixe grande. De vida simples e quase sem conseguir se alimentar diante sua falta de boas pescas, ele conta com a ajuda de um jovem menino do vilarejo, que antes era seu assistente mas, diante o tempo de vacas magras, os pais do menino resolveram botá-lo para auxiliar pescadores mais bem sucedidos. Isso dá ao pescador ainda mais garra para ir ao mar, dessa vez sozinho, rumo a pesca do maior peixe que ele jamais vira. Ele, um velho cansado e que vira e sofrera na vida muita coisa, contra um grande peixe, um peixe que, como o velho, vira no mar muita coisa e estava apto a fazer de tudo pela própria sobrevivência.

Sem capítulos e com uma narrativa que passa 90% em mar aberto, só o pescador, o mar e o grande peixe que ele espera pescar, a leitura é extremamente intimista e nos apresenta os homens como eles são. Pequenos demais, diante a vida, mas ainda assim dispostos a buscar seu próprio lugar em meio a tanto mar e tanto peixe. Santiago é uma figura enigmática e solitária, e durante os 3 dias em que acompanhamos a sua pescaria, ele divaga sobre a vida, sua existência dentro dela e o objetivo dos desejos humanos - do seu próprio desejo.

É um livro que com certeza está distante dos contos-de-fada e finais encantadores. Não é um livro sobre conquista, mas sobre o orgulho, dor e sacrifício que é o ato de conquistar. Depois de um dia inteiro no mar, sem sentir em sua linha de pesca o menor movimento, Santiago percebe que fisgou algo. Algo enorme. E ele declara que essa talvez seja a maior luta de sua vida. Foram mais dois dias segurando essa linha de pesca, sentindo seu barco ser puxado pelo enorme peixe, que, assim como Santiago, não desistia. Foi um período de dor física e cansaço psicológico, em que Santiago pensa em seu próprio corpo limitado, nas estrelas que parecem tão distante e no que ele tem como amigo e cenário de sua existência: o próprio mar.

Por ser tão desassociado de atos em si - diálogos e convivência com outros personagens - o livro se torna denso para quem está procurando um enredo de outra espécie. Não é um livro para você olhar o que Santiago fez durante a  narrativa e amá-lo - ou odiá-lo - por isso, mas para você dissecar o que o personagem pensou, o que ele é, e levar isso para sua vida também. O que o autor queria trazer não era o turbilhão de emoções que temos nos livros convencionais, em que vibramos com os picos dos romances e aventuras. Ler nas entrelinhas fará da leitura de O Velho e o Mar algo mais rico e agradável, com certeza. 

O autor oscila entre contar a história como um observador, e como o próprio protagonista. Em algum momento das 100 páginas, Santiago ganha voz e espirito dentro do enredo de tal forma que o leitor é o que ele é. Só humanos. Você consegue sentir sua dor, seu ensejo e, apesar de seu cansaço, sua vontade de continuar segurando aquela linha de pesca até que aquele peixe desse a ele uma chance para vencê-lo numa batalha final. 

O decorrer do livro é simbólico, mas não tanto quanto seu final. Não convêm que eu conte numa resenha o que Ernest Hemingway construiu na finalização da epopeia do velho Santiago, mas todos os significados estavam ali. A vida é mais dura do que apenas ter o que você quer, porque a vida segue, mesmo após você perder ou ganhar algo que passou tempo se dedicando a ter. Santiago, tal como nós enquanto personagens na existência, seguiu em frente. Até porque somos sempre obrigados a seguir.

Compre aqui: Livraria Cultura - Livro físico R$ 35 | Livraria Saraiva - livro físico R$ 35 | Fnac -Livro físico R$ 35

Autor: Ernest Hemingway Editora Biblioteca Folha
96 páginas
SkoobNota 10 Sinopse: Essa é a história de um homem que convive com a solidão do alto-mar, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e sua inabalável confiança na vida. Esse é o fio do enredo - fio tenso como o que prende na ponta da linha o grande peixe que acaba de ser pescado - com o qual Hemingway arma uma das mais belas obras da literatura contemporânea.Há 84 dias que Santiago, um velho pescador, não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salão, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas Santiago possui têmpera de aço, acredita em si mesmo, e parte sozinho para o mar alto, munido da certeza de que, desta vez, será bem- sucedido no seu trabalho.

Diário de autora | Dores do recomeço e 3 dicas para quem quer voltar a escrever

Você escreve cinco palavras, para e pensa. “Está ruim”, - tac tac tac tac tac, apaga tudo. Mais duas palavras. Há algo de errado. É, vou comer uma pipoca antes de continuar. Dois episódios de Samurai X depois, você pensa “preciso continuar a escrever!”. Volta pra página em branco aberta no computador. Tac tac tac. Continua ruim. Apaga. Reescreve. Decide que as cinco primeiras palavras que escreveu são as melhores. Tenta escrever mais, mas parece que as palavras fugiram totalmente de sua mente. Então decide parar. “É, talvez amanhã eu esteja melhor, mente mais arejada”. O amanhã se transforma em dois dias, que se transformam em uma semana, duas… Quando você dá por si, já está há 3 meses sem escrever uma única linha para seu projeto - seja ele um livro, um simples conto ou qualquer coisa do gênero.

Qualquer semelhança é mera coincidência… ou não. Quem sofre os males da procrastinação, sabe muito bem como é complicado resistir aos desafios que a vida lança toda vez que você senta para escrever algo. Inclusive, textos curtos para blogs, como esse que escrevo agora - e que procrastino há mais ou menos 2 semanas. Ora. Imagine isso em larga escala, então. Um livro inteiro, algo que exige de você não apenas um ou dois dias de dedicação, mas um ou dois anos inteiros. Quem sabe até mais. Esse não é, definitivamente, um texto de respostas absolutas, mas de coisas que me ajudaram a avançar um pouco na cena caótica que meus projetos literários se transformaram.       
Depois de ter escrito meu primeiro livro de verdade aos 13 anos, não consegui concluir mais nada. Eu não sei dizer até que ponto a culpa é da minha falta de foco, surtos de falta de criatividade ou apenas desencontros da vida mesmo. Há dois anos atrás, quando comecei o projeto do meu novo livro de fantasia, eu certamente não esperava que escreveria apenas 8 - O-I-T-O - páginas durante esse tempo. Foi então que resolvi ser taxativa. Larguei o estágio e demais responsabilidades que tinha, e decidi me dedicar integralmente ao meu projeto. Minha expectativa é que Os Illunis do Sul - Saga de Nyria  seja concluído ainda esse ano; mas, é, esbarrei numa dificuldade que realmente não contava: recomeçar é duplamente mais difícil que começar algo do zero. E se você é autor e está na mesma situação que eu, só posso te dizer uma coisa: que os jogos comecem!

Retrospectiva sem exagero

Primeiro ponto, caso esteja produzindo um material ficcional há mais décadas do que consegue contar nos dedos da mão, é importante que você pare para rever tudo que já produziu, incluindo o roteiro da sua história. O roteiro, inicialmente, pode parecer algo que vai cortar sua liberdade durante seu processo de escrita, mas a verdade é que ele funciona numa direção inversa. É através do roteiro que você vai conseguir mais segurança para mudar o que quiser na história sem medo de estar deixando pontas soltas sem perceber. Pois bem. Releia, revise, repense. Mas não fique preso nisso por 3 meses, jovem padawan!

Assim que decidi que retomaria a Saga de Nyria, pegar os roteiros (que estavam meio soltos divididos em vários locais) e rever tudo me ajudou muito a ter segurança para escrever a primeira linha depois de muitos meses longe da história. Claro que nada é tão fácil quanto “leia seu roteiro e voilá”, mas não dá pra transformarmos até esse passo num abismo profundo demais pra transpor. Afinal, se queremos recomeçar, saber das dificuldades e querer superá-las é o mais essencial.

Só escreva

Se o meu projeto ficou mais órfão que anjo cristão, com certeza não foi por falta de tentativas de voltar à ele. Repetidas tentativas, todas frustradas. E por motivos de: muito planejamento. Além de ficar presa no roteiro por uns 7 meses, ano passado, eu não conseguia escrever uma linha sequer pensando se estava seguindo o caminho certo. A verdade é: não existe caminho certo. E, pode parecer clichê, mas o primeiro passo para conseguir terminar de escrever qualquer coisa é pondo no papel a primeira palavra. Está com falta de inspiração? Escreva! Escrever é um exercício, muito mais do que uma arte que te exija inspiração 100% do tempo. As ideias começarão a fluir depois que você der o primeiro passo.

Escreva. Sem interrupções, sem pensar se o que está escrevendo é bom. Só escreva. O momento para melhorar seu texto e torná-lo o mais perfeito possível é após você concluir todo o material e começar o trabalho de revisão. E, sim(!), a revisão é importante, não importa se você vai passar seu material para outras pessoas revisarem ortograficamente depois. Você, como autor, precisa voltar a seu próprio texto e ai, nesse momento, realizar as mudanças textuais que desejou inicialmente. É o momento de ser o mais perfeccionista possível!

 Se você já concluiu seu livro e precisa de um trabalho de revisão mais em conta e acessível, vá na aba de  Orçamento de Revisão  aqui no VP <3 

Desde que comecei a trabalhar desse jeito, minha produção aumentou bastante. Então é uma daquelas dicas que eu posso dizer que dá certo, e muito.

Uma opinião amiga (ou nem tanto)

O fantasma da insegurança é um dos algozes fatais dos escritores. É difícil continuar escrevendo, ou até mesmo ter animo para isso, quando parece que tudo que você está escrevendo é uma porcaria (o que entra um pouco também no tópico anterior). Pode não ser tão fácil se sentir estimulado a escrever, como citei no item anterior, com essa insegurança, que certamente não é um sentimento fácil de mandar embora. A solução, talvez a melhor de todas, é pedir para um ou dois amigos lerem sua produção e darem opiniões sinceras sobre o que leram. Ou, melhor ainda: chame um leitor aleatório, alguém que você não tem intimidade mas sabe que curte o gênero de seu livro, e peça pra ler o que você já produziu.

Só essa ação já pode operar milagres em sua produção, sério! E o mais legal é que há grupos no Facebook,e provavelmente há também em diversos fóruns espalhados pela internet, com pessoas dispostas a oferecer esse segundo olhar a seu projeto. Os chamados Beta readers, esses leitores que oferecem visões por vezes até profissionais, estão disponíveis na rede nas mais diversas formas. Hoje em dia, não é difícil encontrar até mesmo aqueles especializados nesse tipo de consultoria, e dispostos a oferecer esse serviço ao autor através de uma certa quantia.

Para quem não tem dinheiro para investir nisso por enquanto, como eu, apelar para grupos de autores independentes no Facebook ainda é a melhor opção. Um que conheço e pode ajudar bastante nessa caça à um beta reader voluntário, é o Escritores ajudando outros escritores; que super vale a pena participar, inclusive, para quem não quer exatamente um beta reader, mas está interessado em acompanhar a experiência e dicas de outros autores.

Também comecei a oferecer serviço de betagem de obras de ficção! Se está interessado em saber mais sobre, acesse a aba Orçamento de Revisão e Betagem aqui do blog <3

O processo parece doloroso - e, por vezes, parece mais do que é quando posto em prática -, mas garanto que ver seu projeto prontinho no fim de tudo é muito gratificante. Então, só nos resta uma coisa: seguir em frente. E vamos lá que ainda há muitas histórias para contarmos. :) 

Diário de escrita: 12.874 palavras escritas

Resenha | Star Wars, Herdeiro do Império (Timothy Zahn)

Sem sombra de dúvidas, Star Wars vive de seus vilões. O papel deles em toda narrativa, do início ao fim da primeira trilogia de filmes, é indiscutível. Se Darth Vader - junto à Palpatine - atuou na primeira trilogia como o símbolo do lado negro da força, é mesmo difícil imaginar uma persona que tomasse o lugar de Vader após sua morte no episódio VI da série de filmes. Difícil mas não impossível. O autor Timothy Zahn, publicado mais recentemente no Brasil em 2014 pela Aleph, é a prova de como o universo expandido de Star Wars, com todas as suas obras que vão de livros, quadrinhos à games, pode funcionar como de fato uma continuação do que vimos nos filmes originais. Inclusive, com o imprescindível: ótimos vilões.

A continuação da célebre trilogia da década de 70 ganha forma através de Herdeiro do Império, primeiro livro da trilogia escrita por Zahn. Com a dose certa de política e ação, o autor nos apresenta a fragilidade da Nova República 5 anos após a batalha e morte de Darth Vader no episódio VI da franquia, dando vida e forma para um novo vilão tão poderosos e influente quanto o próprio Vader. É impressionante como o autor conseguiu pôr em palavras a personalidade dos nossos protagonistas preferidos, e é fácil visualizar porque a obra escrita por Zahn é considerada ainda hoje como a continuação verdadeira da trilogia de filmes que nos apresentou Luke, Leia e Han Solo.

Apesar da derrota do Império no último episódio da trilogia, o mal está reestruturando suas forças de base e volta a ganhar fôlego. Derrotado, sim, mas não sem uma mente tentando dar nova vida ao plano que começou com Palpatine e ganhou força nas mãos precisas de Darth Vader. Diante disso, as dificuldades da Nova República, comandada por Leia Organo-Solo com o apoio de Luke e Han, vão além da instabilidade política comum a um novo governo. As movimentações do Império, agora gerido pelo comandante Thrawn, visam minar a força da Nova República aos poucos, e a ameaça começa a se tornar cada vez mais real.

Não à toa, a leitura do inicio do livro pode ser bem lenta. O autor vai te fazer caminhar entre o que a Nova República é agora, e aponta os esforços dos nossos heróis para manter esse novo governo. Então, temos aqui as tentativas de Han Solo em fazer parcerias com contrabandistas, pra ajudar no transporte do que a Nova República precisa; Leia, grávida de gêmeos e casada com Han, tentando controlar suas habilidades jedi ao mesmo tempo que ampara a instabilidade política do governo; e Luke tentando descobrir seu papel como último jedi capacitado à usar a Força. Fazer esse passeio durante a leitura torna o livro mais lento, mas é algo bastante necessário. Depois de 150 páginas, mais ou menos, o ritmo do livro muda completamente.

Além de nossos velhos companheiros, tamos também novos personagens, muitos deles tão cativantes e necessários para a narrativa quanto os próprios protagonistas. Além do vilão - Thrawn -, que conquista o leitor muito rapidamente com sua habilidade quase mística de controlar pessoas e prever o que elas farão, temos também a misteriosa Mara, que nutre um rancor inicialmente inexplicável à Luke. O mistério sobre o passado da moça, e sobre o porquê dela desejar tanto matar Luke, se mantêm até quase o fim do livro. A personagem me cativou completamente, não só pela sua carga psicológica confusa, mas também por sua força como guerreira e estrategista; só que - bem, é -, descobrir o mistério do passado dela me decepcionou completamente.

Eu esperava muito mais de Mara e devorei os capítulos em que ela aparecia tentando captar alguma pista do que teria acontecido àquela moça para que a missão de vida dela fosse matar Luke. Quando descobri, me pareceu um motivo muito, muito fraco, e eu diria até que o autor é muito melhor em segurar mistérios do que em criar, propriamente, o mistério. Decepções à parte, todas as outras personagens que apareceram foram maravilhosas.

E, claro, não dá pra esperar qualquer história de Star Wars sem x-wings batalhando no meio da galáxia e tiros - errados - dos stormtroopers. A receita está completa diante as discussões políticas, que sempre estiveram presentes na franquia, a ação, e a luta da república contra o Império. Mas esse é apenas o inicio. O livro aponta, de maneira lenta, o ressurgimento do Império e as estratégias que ele provavelmente seguirá usando nos próximos dois livros da trilogia. O lado sombrio da força está ganhando força, amigos! E esse primeiro livro, foi apenas um retrato singelo das primeiras movimentações dele.


Compre aqui: Saraiva - livro físico R$44,90 R$19,90 *promoção!*
Submarino - livro físico R$19,79
Livraria Cultura - livro físico R$44,90 R$19,80
FNAC - livro físico  R$44,90
Autor: Timothy Zahn
Trilogia Thrawn
Editora Aleph
472 páginas
Skoob
Nota 9/10
Sinopse: Luke, Han e Leia enfrentam uma nova ameaça. Cinco anos após a destruição da Estrela da Morte, a ainda frágil República luta para restabelecer o controle político e curar as feridas deixadas pela guerra que assolou a galáxia. O Império, porém, parece não ter morrido com Dath Vader e o imperador. Habitando os confins da galáxia, o grão-almirante Thrawn, gênio militar por trás de diversas ações imperiais, ainda luta para reconquistar o poder perdido. A bordo do destroier estelar Quimera, ele descobre segredos que lhe darão a chance de destruir definitivamente o que restou da Aliança Rebelde, para assim retomar o domínio da galáxia e controlar os últimos dos Jedi.

Herdeiro do Império é considerado um dos mais importantes marcos do Universo Expandido de Star Wars. Desde seu lançamento, tem sido considerado pelos fãs da franquia como a verdadeira continuação da trilogia original. Além disso, a obra foi usada como base criativa para vários outros produtos da série, incluindo elementos de jogos, filmes e animações.

Representação da mulher na ficção: Uma análise sobre o simbolo feminista em Neuromancer

Se há algo de perigoso na literatura contemporânea, isso ainda é a subposição das mulheres nas histórias - sejam elas fantásticas ou não. Não estou falando apenas de como as mulheres são pessimamente descritas em romances eróticos ou nos gêneros Young Adult/New Adult, mas também do modo como elas quase não aparecem em histórias de ficção como personagens de destaque e relevância, e não somente uma coadjuvante que auxilia o protagonista homem a conseguir seu objetivo. São pouquíssimos os livros que saem desse ciclo vicioso e apresentam personagens femininas interessantes e autênticas, e Neuromancer foi um deles. A seguir, analiso a participação de Molly Millions, uma das personagens centrais, no enredo em contraponto com toda representação feminina que nossos livros, de romances à aventura, insistem em fazer. Esse post vai esmiuçar um pouco sobre a presença feminina na obra, e mostrar o porquê de Molly Millionsser um símbolo feminista.

Neuromancer foi uma das minhas leituras introdutórias a todo universo cyberpunk/ficção cientifica. Já escrevi sobre minha experiência com o gênero nesse post aqui, e apresentei minha critica sobre o livro na resenha que publiquei algum tempo atrás. Um dos pontos que não pude me estender foi a presença de um símbolo feminino forte na narrativa criada por William Gibson. Veja bem. O espaço da mulher na ficção científica sempre foi diminuto e quase inexistente, então é surpreendente que um livro de 1984 consiga traçar uma personagem tão simbólica quanto Molly, ao ponto que mostra como não é difícil dar uma presença feminina real à livros, sejam eles do gênero ou não.  Dividi o tema em tópicos para um entendimento mais fácil, e segue:

1- Indo além dos estereótipos

Não é à toa que mulheres cansam de ler certos tipos de livros, sobretudo romances de banca. Mesmo escritos por autoras mulheres, é impressionante como as personagens do mesmo sexo são simplificadas e enquadradas num perfil de hiper feminina x frágil. Como se não bastasse isso, em outros gêneros literários as mulheres são representadas como meros pontos de apoio para o protagonista homem. Molly é um contraponto à tudo isso. Do inicio ao fim do livro, ela é o que Case, o protagonista de Neuromancer, nunca será. E mesmo em seu suposto papel de coadjuvante, ela supera e chega no mesmo nível de importância para a história que Case.

Mulheres não são damas em perigo, nem criaturas chorosas que passam o dia inteiro sendo sensíveis e cuidadosas com os homens. Nem todas vivem apenas para ter um relacionamento - e nenhuma deveria viver somente com esse objetivo, diga-se de passagem. Eu não sou isso, Molly também não é. O que também não quer dizer que as mulheres em geral não sejam baixinhas - ou altas - ou que não tenham tanta força física quanto um Schwarzenegger da vida, mas elas não são APENAS isso. Mulheres não são apenas e tão somente criaturas delicadas, pelo amor da deusa. Eis o porquê de Molly encantar tanto. Ela não é o estereótipo profundo de mulher delicada, e isso é bom. E se ela não precisa de um homem para matar uma série de soldados, que dirá pra matar uma barata ou abrir um pote de geleia? E se alguma mulher precisa, isso não quer dizer que ela seja um poço de delicadeza frágil e quebradiça, ainda assim. Por favor.

2- Sexo é poder

Proposital ou não, objetificação sexual da mulher em livros é comum. Há algum tipo de obrigação em ter uma protagonista delicada, mas voraz na cama, algum tipo de femme fatale, sobretudo e principalmente nos romances de teor adulto. São delicadas, sensíveis, mas, apesar de puritanas - algumas vezes virgens -, adoram um sexo selvagem. Exalam sensualidade sem nunca ter feito uma relação sexual. Em resumo, estão prontas pra satisfazer o macho alfa a qualquer momento, em detrimento de sua falta de experiência. Não preciso nem apontar qual o problema dessa representação, preciso? Ou será que nós, mulheres, somos meramente poços de hormônio operando com choro e sensualidade o dia inteiro? E, olha só, mulher gosta de sexo, sim, obviamente, mas há um problema grave na objetificação de mulheres, principalmente com relação à seu nível de experiência.

A relação sexual na literatura é também uma clara representação de forças e poder. O teórico social Michel Foucault afirmou em uma entrevista que o sexo muitas vezes é mostrado como um jogo de estratégia e conquista. Parece até exagero falar isso, mas é verdade. A descrição de sexo em romances eróticos, que representam muito mal as mulheres, por sinal, pode servir de exemplo disso. A protagonista quase sempre é um terreno isolado e não explorado. É comum encontrar romances que descrevem a mocinha como alguém que não vê sexo há 5 anos, por exemplo. E está ai a relação de poder do homem protagonista na história: ele é quem dominará esse lugar. No caso de protagonistas virgens, é dado a ele, e unicamente a ele, o direito de tomar posse daquele lugar. E quanto menos homens tiverem o mesmo direito com aquela mulher marcada por sua masculinidade, melhor pra ele - no funcionamento de todo enredo do romance. E daí vem o ciúme quase doentio que é usado como um defeito-qualidade do protagonista pelas autoras.
“Ele é louco de ciúme, mas é um ciúme tão fofo”.

Eis o raciocínio. Ele pode matar outro cara só com seu punho por causa do ciúme, e ainda assim isso será mostrado como uma coisa “boa”. Não é difícil achar romances, principalmente New Adults, com cenas desse nível. Belo Desastre é o de nome mais forte, mas podemos facilmente pensar em outros também. O romance erótico Amante Sombrio (J.R.Ward) - que terminei de ler essa semana - é também um exemplo clássico desse ciúme doentio louvado quase que positivamente.

Sexo é poder. William Gibson sabia disso. Em Neuromancer, o protagonista de Gibson é um desajeitado viciado em drogas. Apesar de ter uma suposta amante, ele é virgem. E Molly é quem dá a ele sua primeira vez: nada de romantização ou excesso de sensualidade. O sexo no livro é o mais fisiológico possível. Molly não utiliza o sexo para controlar Case, e tampouco se deixa ser controlada. O sexo é uma necessidade; necessidade dela, necessidade dele. Tampouco há um esquema de conquista, o que, de certa forma, quebra o processo de sexo como estratégia social, como já citado acima.

Em contraponto, como mulher, Molly ainda está suscetível à homens que utilizam o sexo como poder. O abuso sexual é assustador mesmo para uma mulher samurai, e o escritor sabia disso. No decorrer da história, aparece um personagem turco chamado Riviera. Ilusionista nato, ele tem o poder de gerar miragens visíveis a todos que estejam por perto. Numa ida a um restaurante lotado, ele se levanta e declara que vai fazer um show. A miragem que ele montou mostrava ele, Riviera, tirando a roupa de Molly e fazendo sexo com um quê sádico e nojento. A Molly verdadeira, que estava na mesa em frente a ele assistindo tudo, se levantou de um pulo e saiu do local. Assustada. Enjoada. Essa é a prova que eu precisava ter para saber que o autor conhece muito bem o que é a relação de violência e poder que o sexo pode ter, e geralmente tem.

3- Mulheres fortes não são mulheres masculinizadas

O ponto chave do autor foi ter construído uma personagem mulher forte, mas não masculinizada. Ela é poderosa, dona de si e capaz de derrotar qualquer homem numa briga. Mas isso tudo sem deixar de ser mulher: outro perigo da representação feminina, é o escritor dar a ela características masculinas para que ela se torne “forte” ou mesmo digna de respeito. Molly não é isso. Molly é mulher, e é uma mulher samurai, uma mulher forte e que salva o protagonista um trilhão de vezes, não o contrário. E mesmo sua relação com Case é permeada por uma autoridade dela, que, ainda que em momentos ela não se coloque acima em papel de liderança, nunca se coloca numa posição abaixo. Molly é uma mulher real, e real o bastante para ser usada como símbolo feminista, sim.

Eu adoro a série Xena, a Princesa Guerreira, um clássico para gente de minha idade que tinha acesso apenas à televisão aberta uns anos atrás. Porém, acho que usar ela como contraponto à Molly é importante nesse tópico. Xena é poderosa, forte, ela definitivamente não precisa de homem nenhum. Apesar disso, para a construção da personagem escolheram masculinizá-la o máximo possível, ao ponto de muito pouco ser visto nela como algo feminino. Seus longos cabelos e corpo escultural talvez lhe sirvam pra mostrar que é mulher, mas, além disso, ela é a representação da força masculina. Ao ponto de ser entendida como lésbica principalmente por conta de sua personalidade forte - como se uma mulher não pudesse ter isso, e ainda assim ser feminina e encaixada num padrão normativo convencional. Não é permitido à mulher num cenário heteronormativo ter força e personalidade marcante ao ponto de não precisar profundamente de um homem ao seu lado para sobreviver.

Molly surpreende, nesse ponto, sobretudo porque apesar de ter uma força dita e considerada como masculina, ela permanece mulher. A linha é bem tênue entre mulher e mulher masculinizada, e o autor quase caiu no segundo abismo, de fato, mas ainda assim conseguimos enxergar Molly do modo como ela é, fora de estereótipos. A ausência de estereótipos, aqui, é o que importa. Ora, não foram os estereótipos que deram à Xena uma cara masculina? Molly está longe deles. É importante retratarmos mulheres - e homens também - como seres humanos em qualquer quesito em nossa vida, seja na hora de conversar com alguém, pensar em alguém ou até mesmo ao produzir algum material ficcional. Nossos personagens precisam ser humanos, e não poços de estereótipos do que é ser homem e do que é ser mulher. Porque nenhum desses nos convém. 


O mais importante, talvez, seja dizer que todos esses itens de construção e representação das mulheres na ficção estão intimamente relacionados com toda representação de "mulher ideal" que temos. Vai além da ficção, obviamente. É algo social, tão vivo em nossas frases, nas palavras que usamos pra falar sobre as mulheres. A arma mais poderosa contra nós, mulheres, são essas palavras, todo esse processo social. É esse processo que legitima a violência, o abuso sexual ou moral, na rua ou em casa. Desconstruir é necessário. E a ficção é um portal pra isso - um portal que precisamos usar. E vamos.